terça-feira, 25 de maio de 2010

Lucien Febvre e Marc Bloch: Diferenças e Igualdades

A insatisfação que os jovens Lucien Febvre e Marc Bloch demonstravam nas Décadas de 10 e 20, em relação à História Política, sem dúvida estava vinculada à relativa pobreza de suas análises, em que situações históricas complexas se viam reduzidas a um simples jogo de poder entre grandes homens ou países. A necessidade de uma História mais abrangente e totalizante nascia do fato de que o homem se sentia como um ser cuja complexidade em sua maneira de sentir, pensar e agir, não podia reduzir-se a um pálido reflexo de jogos de poder, ou maneiras de sentir, pensar e agir dos poderosos do momento. Fazer um outra História, na expressão usada por Febvre, era, portanto menos redescobrir o homem do que, enfim descobri-lo na plenitude de sua virtualidade, que se inscreviam concretamente em sua realização histórica. Duas personalidades, dois temperamentos, duas maneiras de abordagem do homem harmonizando-se numa combinação que possibilitou o franqueamento de fronteiras da História.

Considerando estas facetas podemos verificar uma diferenciação de um estudioso para o outro, bem como sua igualdade, já considerando o objetivo dos mesmos com a criação da École dos Annales em 1929. Cada um tinha uma especialidade: Lucien Febvre conhecia o século XVI e Marc Bloch era medievalista.Embora fossem muito parecidos na maneira de abordar os problemas da História, diferiam bastante em seu comportamento. Febvre, oito anos mais velho, era expansivo, veemente e combativo, com uma tendência a zangar-se quando contrariado por seus colegas; Bloch, ao contrário, era sereno, irônico e lacônico, demonstrando um amor quase inglês por qualificações e juízos reticentes. Apesar, ou por causa dessas diferenças trabalharam juntos durante vinte anos entre as duas Guerras.

Segundo Mauro Fonseca (2009) em1897, Lucien Febvre foi admitido na Escola Normal Superior. Era uma pequena Escola Superior, mas altamente qualificada intelectualmente. Aceitava pouco menos de 40 alunos por ano. O ensino era ministrado através de seminários de aulas expositivas, Febvre aprendeu muito com Paul Vidal de La Blache, um Geógrafo interessado em colaborar com Historiadores e Sociólogos, Lucien Lévy-Bruhl, Filósofo e Antropólogo, criador do conceito de "Pensamento Pré-lógico" ou "Mentalidade Primitiva", Émile Mâle, Historiador, um dos pioneiros a concentrar-se não na História das Formas, mas na das imagens, na iconografia, como dizemos hoje, Antoine Meillet, Lingüista, interessado nos aspectos sociais da língua. Febvre reconheceu também seu débito para com inúmeros Historiadores anteriores. Durante toda a vida expressou sua admiração pela obra de Michelet. Reconheceu Burckhardt como um de seus "Mestres", juntamente com o historiador da arte Louis Courajod. Confessa também uma surpreendente influência; a do político de esquerda Jean Jaurés, através de sua obra Histoire Socialiste de la Révolucion Française (1901-3), "Tão rica em intuições sociais e econômicas.".

Através disso, uma característica marcante e poderosa do estudo de Febvre era a introdução geográfica, que traçava um nítido perfil dos contornos a região. A introdução geográfica que era quase obrigatória nas Monografias Provinciais da Escola dos Annales da década de 60. Febvre também teve influência do Geógrafo alemão Ratzel, apesar de num debate apoiar Vidal de La Blache e atacar Ratzel, enfatizando a variedades de possíveis respostas ao desafio de um dado meio. Segundo ele, não havia necessidade, existiam possibilidades. Em última análise, não é o ambiente físico que determina a opção coletiva, mas o homem, sua maneira de viver, seu comportamento.

Segundo BURKE (2000) a. carreira de Bloch não foi muito diferente da de Febvre. Freqüentou também a Ecole Normale, onde seu pai Gustavo ensinava História Antiga. Aprendeu, igualmente, com Meillet e Lévy-Bruhl; contudo, como comprova a análise de suas últimas obras, sua maior influência foi a do Sociólogo Émile Durkheim, que iniciou sua carreira de professor na École mas ou menos na época de seu ingresso.Apesar de seu interesse pela Política Contemporânea, Bloch optou por especializar-se em História Medieval. Como Febvre, interessava-se pela Geografia Histórica, tendo especialização a Íle-de-France, sobre a qual publicou um estudo em 1913. Esse estudo revela que, como Febvre, Bloch pensava no tema sob a perspectiva de uma História-Problema.O compromisso de Bloch com a Geografia era menor do que de Febvre, embora seu compromisso com a Sociologia fosse maior. Contudo, ambos estavam pensando de uma maneira interdisciplinar. Bloch, por exemplo, insistia na necessidade do Historiador Regional combinar as habilidades de um Arqueólogo, de um Paleógrafo, de um Historiador das Leis, e assim por diante.

Considerando tudo isto, quando os dois se encontram criam um grupo forte e teórico que vem derrubar as barreiras que Chartier em seu artigo O Mundo em representação demonstra com grande precisão. Quando Febvre e Bloch se encontraram em 1920, logo após as suas nomeações como professor e maitre de conférences respectivamente, rapidamente tornaram-se amigos. Suas salas de trabalho eram contíguas, e as portas permaneciam abertas. Em suas infindáveis discussões participavam colegas como o Psicólogo Social Charles Blondel, cujas idéias eram importantes para Febvre, e o Sociólogo Maurice Halbwachs, cujo estudo sobre a estrutura social da memória, publicado em 1925, causou profunda impressão em Bloch.

Esse tipo de discussão sobre a Psicologia da Crença não era algo que se podia esperar de um estudo histórico nos anos 20. Era um tema para Psicólogos, Sociólogos ou Antropólogos. De fato, Bloch discutiu seu livro com seu colega de Estrasburgo Charles Blondel, como também com Febvre. Um terceiro aspecto que enfatizava a importância do estudo de Bloch é o seu autor chama de "História Comparativa". Algumas comparações são feitas com sociedades distantes da Europa como a Polinésia, embora sejam feitas de passagem e com extrema cautela: ("não transfiramos os Antípodas para Paris ou Londres"). A comparação entre a França e a Inglaterra, Porém, é central no livro, os dois únicos Países em que o toque real era praticado. Em resumo, Bloch já utilizava, em 1924, o que iria pregar quatro anos mais tarde num artigo chamado "Por uma História Comparativa das Sociedades Européias". Nele, Bloch defende o que chama de "Uso mais competente e mais Geral" do método comparativo, distinguindo o estudo das suas diferenças, e o estudo das sociedades vizinhas no tempo e no espaço das sociedades distantes entre si, recomendando, porém, que os historiadores praticassem ambas as perspectivas.

2 comentários:

  1. Excelente texto, bastante esclarecedor e de certa forma, para mim, empolgante.
    Uma pena que eu não o tenha lido antes.

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  2. Parabéns pelo texto. Eu tenho divulgado esse textos com meus alunos e fiz um link de acesso. Confira em http://natalgeo.blogspot.com.br/ no item Lucian Febvre.

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